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Entendendo
as Terapias para o HCV - Sociedade Brasileira de Hepatologia
TERAPIA DA
HEPATITE C
A terapia da hepatite C, aparentemente simples, pois se baseia
na associação de apenas duas drogas, reveste-se
de uma complexidade ímpar, por vezes dramática,
tantos são os desafios que ainda existem e as perguntas
sem resposta. Após adquirir experiência e maturidade
na lide dos pacientes infectados pelo VHC, o médico percebe
o quão frustrante pode ser essa experiência, para
si e, particularmente, para o paciente. Assim, além do
conhecimento técnico, a terapia exige um comprometimento
integral do médico e, se possível, de uma equipe
multidisciplinar, pois no momento, sob uma ótica otimista,
o jogo está empatado, somos derrotados e vencemos em proporções
semelhantes.
Considerando
essa abordagem, discorreremos sobre os aspectos que julgamos mais
relevantes em relação aos tópicos previamente
enumerados.
a. Definições
de objetivos e resposta ao tratamento
O objetivo
principal da terapia na hepatite C é a eliminação
do VHC. Devemos reconhecer que desde o início da utilização
do Interferon-alfa como droga de escolha, obtivemos avanços
significativos nos índices de sucesso, considerando os
resultados globais, evoluindo de 16% para 61% de RVS, comparando
monoterapia com interferon à associação interferon
peguilado alfa-2a e ribavirina por 48 meses, em pacientes virgens
de tratamento. Como dado intermediário, temos 45%-48% de
RVS utilizando a associação interferon alfa-2b e
ribavirina por 48 semanas, o que correspondeu aos melhores índices
da terapia de associação.
No entanto,
se considerarmos que a leitura inversa dos dados anteriores é
que 39% a 55%-52% dos pacientes não responderão
ao tratamento (PegIFN-alfa-2a/ribavirina e IFN-alfa-2b/ribavirina,
respectivamente), teremos um índice de não-resposta
considerável. Tal observação será
ainda pior ao se analisar os dados do subgrupo infectado pelo
genótipo 1, o mais prevalente. Os dados mais recentes de
IFN-alfa-2 a/ribavirina mostram 49% de não-resposta global
com doses plenas por 48 semanas, sendo de 39% para carga viral
baixa e de 54% para carga viral alta. Ou seja, mesmo para a terapia
padrão, a cura ainda está aquém do desejado.
Assim, de forma prática e otimista, metade dos pacientes
tratados com a terapia padrão ouro não vai se curar!
Para o grupo
de não-respondedores e, como veremos adiante, muitos pacientes
o serão, deveremos estabelecer uma meta terapêutica
diferente, a resposta histológica e a modificação
da história natural da doença, alterando a fibrogênese
e a incidência de carcinoma hepatocelular (CHC), eventos
encontrados independentemente da presença ou não
de RVS. Considerando-se que para muitos a resposta para a terapia
atualmente disponível será subótima, a resposta
histológica é o objetivo primordial para muitos,
senão a maioria dos pacientes, existindo hoje evidências
desse benefício que motivaram sua análise em estudos
de longa duração, por exemplo, HALT-C e EPIC que
visam minimizar a fibrose.
Temos assim
dois tipos de objetivos terapêuticos e as seguintes respostas:
- Eliminação
do VHC
Resposta Virológica
Sustentada (RVS): RNA viral indetectável 24 semanas após
o término da terapia.
Resposta Virológica
Não-Sustentada: RNA viral indetectável ao término
da terapia, porém presente nas 24 semanas subseqüentes.
Ausência
de Resposta/Não-Respondedor: Presença do RNA viral
ao término da terapia, ou durante, após estar indetectável
(breaktrough).
- Resposta
histológica
A resposta
bioquímica, normalização das transaminases
de forma persistente ou transitória, correlacionou-se com
redução no desenvolvimento de CHC.
b. Fatores
limitantes: pacientes difíceis de tratar
Para uma melhor
compreensão das limitações da atual terapia,
baseada na utilização do interferon como principal
efetor, devemos conhecer o mecanismo de ação desse
agente e os mecanismos de defesa do VHC.
Os interferons
são membros de uma família de citocinas indutíveis
em resposta a uma série de estímulos nocivos ao
indivíduo. Os interferons tipo I são induzidos por
estímulos virais, e nesse grupo encontramos o IFN-alfa,
utilizado na terapia da hepatite C. Fundamentalmente, o IFN atuará
induzindo uma resposta após uma estimulação
ou, de forma parácrina, após a administração
exógena. Depende, portanto, da interação
com um efetor/hospedeiro. Após a ligação
a um receptor nas células efetoras, seu sinal será
mediado por uma via citoplasmática - JAK-STAT, PKR, 2’5’OAS
e Mx - desencadeando a síntese de proteínas que
coletivamente criarão um “estado antiviral”
que interferirá com a síntese do RNA viral. Além
dessa ação, o IFN age como imunomodulador induzindo
a expressão de antígenos pela via MHC, ativando
efetores (células NK, macrófagos, linfócitos
T citotóxicos), amplia a resposta Th1 e reduz a Th2 perifericamente
– modulando o dano tissular. Porém, infelizmente,
a atuação do IFN ocorre
num ambiente hostil, semelhante a um “campo minado”,
correspondente não só aos mecanismos de defesa do
VHC, mas também a fatores do hospedeiro que dificultam
sua ação.
Entre os fatores
de defesa do VHC, principalmente para o genótipo 1b, destaca-se
a região NS5A do genoma. Nessa encontramos entre os AA
2209-2248 a Região Determinante de Sensibilidade ao Interferon
(ISDR) e entre os AA 2356-2379 a região V3, além
do domínio de ligação ao PKR. Tais regiões
do genoma e suas proteínas têm sido associadas em
modelos experimentais e em amostras de pacientes a resistência
ao IFN, interferindo principalmente com a via do PKR. A região
E2 e mesmo toda a poliproteína do VHC também se
correlacionam com tal efeito. Modelos experimentais em hepatócitos
propõem que um nível basal de expressão do
NS5A, independentemente de genótipo ou mutação,
confere alguma proteção ao VHC, sendo possível
que a resistência seja uma adaptação a um
ambiente hostil criado pelo IFN. No entanto, estudos de quasispécies
do VHC em Não-Respondedores demonstraram que durante o
tratamento a distribuição dessas não se alterou;
porém, um menor número basal de quasispécies
se correlacionou
com melhor resposta terapêutica. Por esse dado, a interferência
da pressão da terapia fica comprometida, mas a relevância
de uma resistência basal, ou seja, cepas naturalmente mais
resistentes, fica evidenciada. A obtenção de uma
terapia que neutralize tal “campo minado”, principalmente
as proteínas do NS5A e E2, poderá aumentar a eficácia
da atual terapia, além de criar uma terapia realmente antiviral.
Considerando
que temos uma terapia subótima, que depende da interação
com o hospedeiro e um vírus altamente capaz de se proteger,
poderíamos definir pacientes difíceis de tratar,
como todo aquele infectado pelo VHC.
Na verdade,
isso não é real se considerarmos os estudos já
realizados durante o desenvolvimento da terapia atualmente considerada
padrão ouro, quando foi possível demonstrar a eficácia
desta e definir fatores preditivos de resposta favorável.
No entanto, um dos méritos do recente consenso do NIH,
além de definir claramente o papel do interferon peguilado
como terapia padrão em pacientes virgens para terapia infectados
pelo genótipo 1, foi ampliar a discussão dos resultados
obtidos em protocolos controlados em relação aos
da “vida real” e se os mesmos ocorreriam em pacientes
menos selecionados ou difíceis de tratar. Dessa forma,
volta a valer o conceito de que todos os pacientes são
difíceis, uma vez que os resultados favoráveis podem
estar com algum viés, como analisaremos a seguir.
O primeiro
dado que devemos considerar é o fator adesão terapêutica.
Como já observamos anteriormente, os melhores percentuais
descritos de RVS são os descritos nos estudos de desenvolvimento
dos IFNs peguilados. Enquanto Manns e Fried encontraram 48% e
45%, respectivamente, McHutchison encontrou 36% de RVS com a associação
IFN/ribavirina. Tal fato é observado por Manns, com alguma
surpresa, pois a casuística dos estudos foi semelhante
nos diversos aspectos relevantes, excluindo assim a possibilidade
de uma amostra selecionada. Uma das possibilidades para explicar
esse fato é uma maior experiência no manuseio da
associação, o que acarretou um menor número
de descontinuações. Essa explicação
é plausível, mas há que se considerar que
um paciente acompanhado no contexto do protocolo está muito
mais motivado para se tratar, é atendido por uma equipe
multidisciplinar e possui facilidade de acesso aos recursos diagnósticos
e terapêuticos. Dessa forma, uma maior adesão é
esperada e certamente influenciou nesse resultado, tanto que os
resultados da terapia com interferon peguilado foram analisados
separadamente em relação à adesão,
e esta se mostrou crítica e altamente relevante, elevando,
na terapia otimizada por peso e adesão, a RVS de 48% para
63% no genótipo 1 e 88% para 94% no genótipo 2 e
3. Portanto, será que na vida real, onde a adesão
não será necessariamente tão boa, os resultados
serão os mesmos? Será ainda que se otimizarmos a
utilização do interferon convencional, mais barato,
não conseguiremos melhorar a performance desse?
Um grupo de
pacientes que pode ser representativo dos problemas da vida real
é o de veteranos da Guerra do Vietnã, caracterizados
por uma combinação única de fatores preditivos
de má resposta única: maioria masculinos, genótipo
1, idade acima de 40 anos e doença histológica avançada.
Além disso, sua elegibilidade para terapia é bastante
comprometida pelo consumo de drogas e álcool e problemas
psiquiátricos. Em 100 candidatos à terapia, 51%
eram negros, fator de pior resposta, como veremos adiante. Apenas
32% foram selecionados para tratamento, semelhante a estudos em
população geral, onde o percentual de elegibilidade
variou entre 34 a 58%. No trabalho de Manns e col., entre 2.316
triados, 66% dos pacientes foram elegíveis. Observa-se
que tal número é o dobro dos anteriormente descritos.
Seria esse um fator relevante, ou seja, uma população
melhor selecionada, com mais adesão ou doença menos
grave?
Recentemente,
Falck-Ytter e col. analisaram a aplicabilidade da terapia com
interferon em uma população metropolitana atendida
em um hospital universitário nos Estados Unidos. Entre
327 pacientes avaliados em função de positividade
do anti-HCV, 72% não foram tratados (seguimento médico
irregular, co-morbidade médica ou psiquiátrica severa,
uso de álcool ou drogas ou não-concordância
com a terapia). Assim, a maioria dos pacientes portadores de hepatite
C pode não ser de bons candidatos para terapia, e entre
os 83 tratados com interferon e/ou interferon e ribavirina, não
sendo especificada pelos autores qual a proporção
de cada terapia e nem os dados virológicos, RVS ocorreu
em apenas 11 (13%) pacientes, número muito menor do que
o observado nos estudos clínicos publicados. Esse estudo
demonstra claramente a dificuldade de transpor os resultados de
protocolos clínicos para a vida real e, mais importante
que isso, a necessidade de uma abordagem assistencial multiprofissional,
visando
reduzir os danos associados ao álcool e drogas, tratar
as doenças psiquiátricas e incrementar a adesão
terapêutica.
A abordagem
multiprofissional possibilita ainda a tentativa de otimizar o
interferon convencional através de esquemas posológicos
alternativos, com doses diárias, que podem corrigir o descompasso
entre a farmacocinética desse e a cinética do VHC,
importante fator para o insucesso da terapia convencional. Abbas
e col. obtiveram 88% de RVS em 35 pacientes tratados com interferon-alfa
diário e ribavirina por seis meses. Desses, 14 possuíam
tipo 3, entre os 29 testados. A tolerância ao tratamento
foi boa. Embora pequeno, esse estudo evidencia que essa pode ser
uma abordagem alternativa, enquanto o custo do PegIFN ainda é
proibitivo para a maioria das pessoas.
Outro fator
importante na transposição dos resultados para a
vida real é o fator racial. De Maria e col. demonstram
que existem fatores genéticos e ambientais que podem estar
implicados na resposta terapêutica. Comparando grupos semelhantes
de negros e caucasianos submetidos à terapia com interferon,
houve 10% de RVS entre os negros e 53% entre os brancos (p <
0,0001). No desenvolvimento do PegIFN-alfa-2a, o predomínio
racial foi de brancos, 85%, com 3% de negros. Entre 55 negros
avaliados, 80% apresentavam genótipo 1, 25% cirrose ou
transição para cirrose. No grupo que recebeu monoterapia
com IFN houve 0% de RVS, contra 13% nos brancos; entre a monoterapia
com PegIFN-alfa-2a houve 15% e 35% de RVS entre negros e brancos.
Fica demonstrada a superioridade do PegIFN, porém é
nítida a influência da raça, o que é
preocupante em um país como o Brasil. Estudos com combinação
PegIFN-alfa-2a e ribavirina em negros estão em andamento.
No estudo de Manns, com PegIFN alfa-2b, a raça dos
pacientes não é citada, mas considerando-se que
foi realizada em áreas de predomínio racial caucasiano,
é provável que tal informação não
seja conhecida.
Considerações
feitas, podemos categorizar as causas de insucesso terapêutico:
• Fatores relacionados à terapia:
- Esquema
utilizado na fase inicial (indução): 3x/sem inadequado
à cinética do VHC
• Duração: maior duração reduz
recidiva
• Fatores
relacionados ao paciente:
- Idade (>
40)
- Gênero
- Raça
- Peso (alteração distribuição; esteatose
- adiante)
- Anticorpos antiinterferon
• Hábitos: álcool, drogas
- Adesão
• Fatores
relacionados à doença:
- Grau de
fibrose/cirrose
- Co-infecção HIV
- Manifestações extra-hepáticas
- Não-resposta a tratamento anterior
- “ALT normal e lesão hepática leve”
– analisar o contexto, pois se houver boa perspectiva de
RVS, tratar.
• Fatores
relacionados ao VHC:
- Diversidade
e número de quasispécies
- Genótipo (1/não-1): papel NS5A, E2, poliproteína:
escape ao IFN?
Portanto,
de forma criteriosa, podemos definir pacientes “mais”
difíceis de tratar como os portadores de fatores prognósticos
ruins, isolados ou em associação. Além disso,
existem grupos específicos que merecem ser citados:
• Hepatopatia
avançada
• Citopenias (Plaquetas < 75.000/mm3, leucopenia <
1.500/mm3)
• Hemorragia digestiva
• Infecções
• CHC
• Disfunção de síntese do fígado
• Ascite intratável
• Doenças concomitantes
• Doenças mentais
• Doenças auto-imunes
• Hemofilia
• Doença renal
• Populações “marginais”
• Alcoólatras
• Usuários de drogas
• Encarcerados/Institucionalizados
• Moradores de rua
• Populações especiais
• Negros
• Idosos
c. Terapia
em pacientes difíceis
(1) Populações “marginais” e especiais
São
pouco estudadas uma vez que estão excluídas dos
grandes trials. No entanto, dentro desse importante grupo, o VHC
tem se perpetuado, sendo esse o principal reservatório
do VHC e, a partir desses, infecta novas pessoas, uma vez que
a aquisição de VHC pela via transfusional, em países
com bom controle do sangue e derivados, é desprezível.
Portanto, a erradicação da infecção
nessa população é fundamental. Não
há razão aparente para que esse grupo seja pior
que os demais em relação à resposta. O fator
que certamente o desfavorece é a baixa adesão terapêutica
e a exposição de risco para aquisição
de co-infecções, principalmente o HIV, piorando
assim seu prognóstico.
A adesão
e a redução de risco são objetivos factíveis
quando se institui uma abordagem multiprofissional, observando-se
RVS à terapia com IFN e ribavirina semelhante à
da população geral.
A terapia
em idosos foi revista recentemente em nosso meio, observando-se
uma tolerância satisfatória, a possibilidade de RVS
e RVNS e melhora histológica. No entanto, os dados são
insuficientes para generalizações, mas permitem
que protocolos sejam considerados. O tratamento de negros foi
discutido previamente.
(2) Terapia
em hepatopatia avançada
Mais uma vez
estaremos diante de dados extraídos de forma secundária
dos grandes ensaios clínicos com PegIFN, exceto para o
PegIFN-alfa-2a, que possui um estudo específico para a
população de cirróticos. O percentual de
RVS em cirróticos tratados com PegIFN/ribavirina é
superior ao da combinação com IFN convencional,
porém inferior ao de pacientes com doença mais branda,
por exemplo para o PegIFN-alfa-2a, 43%, 33% e 58%, respectivamente.
O uso de eritropoietina e GM-CSF aliado ao ajuste posológico
da ribavirina e INF permite um manuseio seguro das alterações
hematológicas, embora a redução da dose do
IFN comprometa sua eficácia antiviral.
Para esse
grupo em particular objetivos terapêuticos histológicos
mostram-se apropriados e prioritários. Atualmente, o estudo
HALT-C procura avaliar esse efeito através da terapia prolongada
com PegIFN-alfa-2a em doses reduzidas. O quanto esse benefício
histológico representará em redução
nas complicações potencialmente fatais ainda está
por ser definido.
Finalmente,
em cirróticos descompensados, a terapia antiviral só
deve ser considerada em protocolos clínicos, sendo o transplante
hepático a melhor alternativa. A terapia antiviral pós-transplante
será discutida separadamente.
(3) Doenças
concomitantes
Nesse grupo,
a terapia convencional tem sido empregada com resultados semelhantes
aos da população geral. No entanto, há a
necessidade de um monitoramento freqüente e da abordagem
multiprofissional para as doenças mentais. A insuficiência
renal crônica (IRC) deve ser tratada com monoterapia, pois
a ribavirina é contra-indicada, não só por
causar anemia hemolítica dose-dependente mas também
porque não é dialisável. Assim, uma boa indicação
para a monoterapia com PegIFN, que proporciona resultados semelhantes
aos da associação do IFN com ribavirina, é
a IRC.
Em doenças
auto-imunes, a utilização de IFN está prejudicada,
pois o risco de exacerbação é grande. Nessa
situação, o controle através da corticoterapia
deve anteceder a eventual e cuidadosa utilização
do IFN.
(4) Terapia
em não-respondedores e recidivantes
Embora grande
parte dos infectados pelo VHC desconheça sua condição,
uma parcela significativa de pacientes já foi tratada.
Pelo que temos discutido, mesmo sob uma ótica otimista,
a maioria dos pacientes tratados não obteve RVS e grande
parte dos que ainda serão tratados terá um destino
semelhante. Assim, a abordagem para pacientes não-respondedores
ou com resposta não-sustentada para terapia com interferon
e interferon/ribavirina é tema de elevada relevância
e muito presente na prática clínica diária.
Como vimos,
a terapia baseia-se fundamentalmente na utilização
do Interferon, medicamento de atuação indireta e
para o qual o VHC é capaz de produzir mecanismos de escape
muito eficazes. Embora a associação com a ribavirina
tenha aumentado o sucesso, atuando principalmente na segunda fase
da curva de resposta virológica, reduzindo as recidivas
virais, isso não impediu que tanto em protocolos mais antigos
quanto na prática clínica tenhamos pacientes submetidos
a ciclo, ou ciclos, terapêuticos ineficazes, com o potencial
de seleção de quasispécies mais resistentes,
o que agrava a situação, embora isso seja controverso,
pois é possível que a resistência seja intrínseca
e que terapias anteriores tenham apenas eliminado as quasispécies
sensíveis, não interferindo com as já naturalmente
resistentes. De fato, Farci e col., ao analisarem de forma seriada
seqüências dos genes de envelope 1 e 2, inclusive da
região hipervariável 1, em 23 pacientes com diversos
padrões de resposta virológica,observaram que a
redução no número de quasispécies
no início da terapia, sendo substituída por uma
única variante viral, funciona como preditor de resposta
favorável e pode ser detectada tão precocemente
como em duas semanas, e que, diferentemente, a persistência
de quasispécies já presentes antes da terapia sugere
a existência de resistência intrínseca.
Portanto, a terapia de não-respondedores e mesmo de respondedores
parciais baseada na associação de IFN, convencional
ou peguilado, com vários outros agentes antivirais ou imunomoduladores
(Ribavirina, Amantadina, Histamina, Citocinas) ou variações
posológicas ou da molécula de IFN – IFN consenso
– mostra resultados diversos, eventualmente superiores,
porém ainda insuficientes para compensar o custo-benefício
desses. No momento vários estudos avaliam o potencial terapêutico
dessas associações, no entanto parece-nos que para
não-respondedores a melhor opção é
o aguardo, sob monitoramento clínico, de novas classes
de agentes – nucleotídeos antisense, ribozimas, inibidores
de protease para NS3, inibidores de helicase – capazes de
atuar contra o VHC diretamente, o que deve ocorrer nos próximos
cinco anos. Já para pacientes com doença avançada
– cirrose ou transição para cirrose –
o uso de IFN prolongado, como já comentamos anteriormente,
é uma alternativa aparentemente segura e eficaz em seus
propósitos, ou seja, desacelerar a progressão da
doença e reduzir as complicações e o CHC.
Aguardamos as conclusões do estudo HALT-C para a confirmação
disso, todavia, como existem referências para tanto é
possível que o médico possa decidir por uma abordagem
desse tipo para casos selecionados.
De forma prática,
a decisão para o retratamento dependerá da terapia
anterior, da terapia a ser usada, do tipo de resposta prévia
– NR ou RNS – da raça, do genótipo,
da severidade histológica, da tolerância e adesão
prévias. Além disso, o resultado esperado não
deve ser superior à diferença do melhor resultado
entre a terapia anterior e a próxima. Como preditores de
boa resposta ao retratamento, temos a raça branca, o genótipo
2 e 3, carga viral menor que 2 milhões cp/ml e queda dessa
para menos de 100.000 cp/ml durante o tratamento prévio.
Devemos considerar
na decisão terapêutica a história natural
da hepatite C, na maioria dos casos de evolução
histológica branda e que o retratamento de NR leva a apenas
10%-25% de RVS ou até piores fora de um protocolo clínico,
em um contexto assistencial. Além disso, a terapia subseqüente
deverá ser sempre superior. Dessa forma, o retratamento,
cujo benefício é limitado, deve ser reservado aos
bons candidatos e a pacientes com fibrose significativa, sendo
a terapia de manutenção indicada aos cirróticos,
ou em transição para cirrose, que na terapia anterior
tenham tido redução da carga viral e melhora histológica.
Em pacientes com lesões mínimas, a melhor conduta
é a observação e acompanhamento clínico.
Resumidamente,
temos as seguintes opções terapêuticas:
• Não-Respondedores:
• NF:
- dose maior de IFN
- IFN/ribavirina 24-48 semanas
- IFN diário/ribavirina
• IFN/ribavirina:
- IFN/ribavirina/amantadina
- IFN de consenso
- PegIFN/ribavirina-15-20% RVS
. PegINF/ribavirina:
- Manutenção de PegIFN
• Resposta Não-Sustentada:
INFERGEN
- IFN/ribavirina (até 50% de RVS)
• IFN/ribavirina:
- PegIFN/ribavirina
- (60% de RVS com PegIFN alfa-2b 1,5/ribav 800)
- IFN/ribavirina: acarretará RNS
A definição de bons candidatos para retratamento
com PegINF é muito importante considerando os custos envolvidos.
Estes são os recidivantes, monoterapia prévia com
IFN, queda maior que 2 log na terapia anterior, genótipo
2 ou 3, adesão ruim ao tratamento anterior e abstinência
ao álcool. Considerando que no Brasil, pela dificuldade
de acesso ao métodos diagnósticos, é difícil
categorizar os pacientes como NR ou RNS, deveremos analisar o
conjunto de informações disponíveis, mas
há uma tendência ao uso de formulações
peguiladas, particularmente nos pacientes com muita fibrose hepática.
a. Custo-benefício
Esse é
um tópico polêmico e ainda não resolvido,
dependendo da ótica de cada parte envolvida. Para o paciente,
a terapia padrão ouro é sempre desejada e, na pior
das hipóteses, o fato de se utilizar uma droga de administração
semanal como o PegIFN já é por si uma grande vantagem.
Para o médico assistente, respeitando-se as regras de segurança
e ética, a terapia padrão ouro também é
sempre desejada e, apesar da análise técnica, esse
sempre tentará incluir seu paciente dentro do grupo que
obtém sucesso nas estatísticas, mesmo as mais desfavoráveis,
ou no grupo das exceções, quando existirem referências
literárias que o permitam, ou dentro de protocolos criados
em suas instituições. E, finalmente, para os gestores
da Saúde, a terapia deve ser aquela comprovadamente eficaz
não só em protocolos, mas também após
sua transposição para a vida real, o que nem sempre
é possível porque o número de pacientes tratados
nesse contexto é insuficiente ou não monitorado,
porque a terapia é muito cara
e inacessível ou porque a urgência e a gravidade
da situação não permitam que se aguarde,
como é o caso da Aids.
O princípio mestre que deve nortear nossas ações
é o interesse da Saúde do indivíduo sob nossa
responsabilidade, que no Brasil é assegurado constitucionalmente.
Já para o Estado o interesse é coletivo, sem que
ocorra, a princípio, um prejuízo à saúde
do indivíduo. Esse é um dilema, talvez até
um conflito não solucionado, mas certamente o tempo vai
se encarregar de resolver. No entanto, há tempo? Sim e
não. Há tempo para os indivíduos com forma
branda, mas para os em cirrotização ou já
cirróticos, a terapia deve ser otimizada já, e sempre,
lembrando que o recente avanço dos interferons peguilados
estará em breve suplantado pelas novas alternativas que
virão e que também devem ser disponibilizadas. Além
do desafio da terapia, há o desafio do diagnóstico,
desde identificar os infectados – e que desconhecem sua
condição – até a plena avaliação
e monitoramento dos já diagnosticados, identificando entre
eles os prioritários, tarefa que por vezes pode ser tão
simples quanto realizar um
hemograma, triando os plaquetopênicos...
Em relação
à terapia, mesmo que não se reproduzam na vida real
os mesmos resultados dos protocolos, é inegável
a superioridade do PegIFN na maioria das situações,
pois ele sempre é superior ao convencional, em maior ou
menor grau, mesmo para o genótipo 2 e 3, onde a superioridade
é menos evidente. Além disso, a abordagem multiprofissional
pode incrementar a adesão e melhorar os benefícios
do IFN – peguilado ou não – e o uso semanal
permite terapia supervisionada em grupos selecionados. Além
disso, a predição de resposta na semana 12, ou até
antes, pode resultar em economia de recursos, seja pela interrupção
da terapia, seja pela redução da dose de PegIFN,
caso se opte por um objetivo histológico.
É provável
ainda que, a exemplo do que se comprovou para a terapia de associação
IFN/ribavirina e com a Aids, a terapia com PegIFN e ribavirina,
com abordagem laboratorial adequada, seja a medida economicamente
mais viável e a de melhor impacto na qualidade de vida,
pois o não-tratamento implicará em custos futuros
decorrentes das complicações da hepatopatia grave
e do CHC.
Finalmente,
como inexiste uma vacina eficaz, a terapia dos infectados associada
à prevenção de novas contaminações
parece ser a melhor alternativa para tentar erradicar o pool que
mantém e perpetua a hepatite C.
Em minha opinião,
cabe às Sociedades Médicas, Universidades, ONGs,
à Indústria e ao Governo o estabelecimento de parcerias
para criar protocolos adaptados à vida real e monitorar
os resultados da terapia nos pacientes já tratados, usando
para esse fim consensos independentes, como é o caso do
presente documento feito pela SPI. Além disso, outro exemplo
da Aids a ser seguido é o da abordagem multiprofissional
visando adesão à terapia.
b. Fatores
modificadores da evolução da doença
Embora seja
uma doença infecciosa, não podemos perder de vista
que a hepatite C é sobretudo uma doença fibrogênica,
pois em última análise a morte nessa patologia decorre
das complicações da cirrose hepática ou do
CHC. Assim, qualquer medida que possa interferir, favorecendo
ou retardando tais fenômenos, é relevante, pois como
já vimos os recursos terapêuticos são limitados.
A abordagem
de cada caso deve ser feita de maneira realística, informando
ao paciente que a doença não progredirá rapidamente,
poderá não progredir, pode ser compatível
com um tempo de vida normal e poderá responder à
terapia. De fato, estudos de seguimento (média 4-16 anos)
de pacientes portadores de hepatite não-A não-B
pós-transfusional, posteriormente C, demonstraram que a
progressão para a cronicidade é comum, cirrose foi
identificada entre 1% e 20% dos casos, CHC foi raro e a mortalidade
relacionada ao fígado foi modesta, variando entre 0% e
3,7%. Tais estudos, no entanto, possuem imperfeições
por se concentrarem apenas nos que desenvolveram “hepatite”,
negligenciando vários aspectos, como por exemplo pacientes
com ALT normal e a influência de fatores externos como o
álcool.
Estudos retrospectivos,
que no entanto pela abordagem e possibilidade de investigação
laboratorial utilizada assemelham-se a estudos prospectivos, envolvendo
pacientes infectados há 17-40 anos, e, em um caso, soros
de mais de 50 anos, evidenciaram que a doença evolui de
forma severa em 15%-20% dos casos enquanto 55% evoluí com
forma crônica e assintomática. De forma geral, 20%
dos casos agudos são curados e 80% cronificam e, sob influência
da terapia com IFN e ribavirina (estimando 35% de RVS), uma coorte
hipotética de 100 pacientes teria 64% de prognóstico
favorável e 36% com prognóstico ruim. Embora essa
perspectiva seja esperançosa, não é possível
ignorar o grande número de pacientes que morrerá
ou necessitará de um transplante de fígado em função
da hepatite C, bem como que a perspectiva individual não
deve subestimar a magnitude e o impacto global da hepatite C!
Além disso, ainda não conhecemos o pico da curva
de incidência da epidemia de hepatite C, mas sua amplitude
estimada é enorme e seus reflexos já se fazem presentes,
por exemplo na indicação de transplante hepático
nos EUA, onde 1/3 dos casos tem por indicação a
hepatite C.
Em relação
à progressão histológica, dois estudos clássicos
– Kiyosawa e Tong – permitiram a útil aproximação
de que o tempo de infecção para o aparecimento de
hepatite crônica é de dez anos, cirrose em 20 anos
e CHC em 30 anos. Em relação à taxa de progressão
da fibrose, Poynard e col. estimaram que a progressão ocorre
na razão de 0,133 unidades/ano (sistema METAVIR), ou seja,
o tempo necessário para avançar de um estágio
de fibrose para outro é de 7,5 anos, e o tempo para desenvolver
cirrose é de 30 anos. O mesmo autor descreve que existem
três padrões distintos de progressão: lento,
intermediário e rápido, existindo uma correlação
quase linear entre a idade do paciente na biópsia e o tempo
de infecção com o grau de fibrose. Assim, 1/3 dos
pacientes poderá desenvolver cirrose em menos de 20 anos
e outro terço poderá nunca desenvolver cirrose ou
fazê-lo em intervalo superior a 50 anos. Nesse aspecto,
finalmente, Poynard descreve ainda a diferença na progressão
entre pacientes
masculinos, infectados após os 40 anos de idade e que ingerem
mais de 50 g de álcool ao dia quando comparados com mulheres
infectadas com menos de 40 anos e que não ingerem álcool.
Nos homens, o tempo médio de progressão para cirrose
foi de 13 anos e nas mulheres de 42 anos.
Os fatores
associados ou não com a progressão da fibrose são:
• Associados
em análise univariada e multivariada
- Idade na infecção
- Duração da infecção
- Idade na biópsia
- Ingesta > 50 g/dia de álcool
- Infecção pelo HIV
- CD4 < 200/mm3
- Sexo feminino
- Estágio de fibrose
• Incertos
- Necrose hepática
- Inflamação hepática (perfil de citocinas)
- Heterozigotos para hemocromatose
- Tabagismo
- Esteatose
- Índice de massa corpórea
- Consumo moderado de álcool
- Diabetes
• Não
associados
- Carga viral plasmática e hepática
- Genótipo
- Quasispécies
- Modo de infecção
- Antígenos DR
- Complexidade da região hipervariável-1
Entre esses
fatores, a progressão depende particularmente do sexo,
idade e consumo de álcool. O RR para cirrose para homens
é de 2. Infecção após 30 anos tem
RR de 27,1 para cirrose e 5,3 quando infecção entre
21-30 anos. Consumo de álcool > 50 g/dia acarreta RR
de 4,5. Já o grau de atividade, A2 ou A3, acarreta RR de
apenas 1,4 para cirrose. Pacientes com ALT normal possuem progressão
baixa da cirrose, porém até 15% desses podem ter
progressão, o que indica a necessidade de avaliá-los.
A explicação
para esses fatos pode ser a influência do estresse oxidativo,
redução da irrigação sangüínea
e das funções mitocondriais e imune nos idosos,
a ação antifibrótica potencial dos estrógenos
em relação ao sexo.
Um fator isoladamente
mais importante é a co-infecção pelo HIV
que acelera sobremaneira a fibrose hepática e compromete
toda a história natural da infecção. O papel
da co-infecção é discutido isoladamente em
outra seção do consenso.
Após
o estabelecimento da cirrose, a probabilidade de sobrevivência
é de 96%, 91% e 79% em três, cinco e dez anos. No
entanto, após a descompensação, essa se reduz
para 50% em cinco anos. A taxa de mortalidade é de 1,9%
nos primeiros cinco anos de cirrose. O desenvolvimento de CHC
possui um risco cumulativo de 4%, 7% e 14% nos anos três,
cinco e dez de cirrose e a taxa de incidência anual é
de 1,4%.
Elevação
de bilirrubinas, evidência clínica de hipertensão
portal, idade avançada, plaquetopenia e terapia com IFN
são fatores independentes associados a sobrevivência.
Recentemente
tem-se descrito a importância da esteatose como fator promotor
de fibrose. O genótipo 3 está mais associado com
esteatose, bem como outros fatores metabólicos (dislipidemias,
obesidade, resistência a insulina e diabetes). Assim, a
reversão e controle dessas alterações metabólicas
pode ter um impacto favorável.
A biópsia
hepática ainda é o melhor método para monitorar
a fibrose. Deve ser realizada a cada três/cinco anos em
pacientes não tratados, sendo esse intervalo variável
em pacientes de maior ou menor risco de progressão (considerar
idade, biópsia anterior, ALT, etc.). Por outro lado, se
houver chance real de cura (bons fatores preditivos), a terapia
parece ser custo-benefício favorável se comparada
ao monitoramento e biópsias seriadas em pacientes com doença
branda. Na prática diária, o monitoramento dos níveis
de ALT é útil no acompanhamento da progressão
da fibrose, enquanto métodos mais dispendiosos utilizando
marcadores sorológicos da fibrose têm sido desenvolvidos,
destacando, no entanto, que dados preliminares do estudo HALT-C
mostraram que plaquetopenia isoladamente foi quase tão
eficaz quanto um painel de marcadores de fibrose para a detecção
de cirrose.
Considerando
que a descrição do VHC é recente, ainda não
é possível demonstrar em definitivo os benefícios
tardios da terapia, porém os dados já disponíveis
permitem afirmar com muita segurança que a RVS está
associada com regressão das lesões histológicas,
mesmo estruturais. Tal efeito é observado mesmo para respondedores
parciais ou não-respondedores, como discutimos anteriormente.
Assim a terapia antiinfecciosa modifica a progressão.
Segundo Leonard
Seef, em apresentação oral na conferência
de consenso de NIH em 2002, sugere-se que 50%-70% dos casos não
progredirão se os fatores interferentes da história
natural forem modificados. Parece-nos óbvio, portanto,
que tão importante quanto a terapia medicamentosa é
a terapia não-medicamentosa, que envolve redução
de danos-combate à aquisição do VHC em pacientes
de risco (mais velhos, portadores do HIV), combate ao uso de drogas
e/ou uso compartilhado, não-infecção pelo
HIV nos portadores de HCV, abstinência do álcool,
etc. – além do controle metabólico e de peso,
ensejando, portanto, uma abordagem multiprofissional.
fonte: www.sbhepatoligia.org.br